Aprender a escrever pode ser uma linda aventura ou um estágio no front de batalha. Lembro-me de, na extinta pré-escola, ter feito um esforço descomunal na tentativa de lembrar qual das 23 letras era a bendita “E”, que a professora ditara. Quando, enfim, uma vaga memória visual surgiu, rapidamente a escrevi no interminável caderno de caligrafia. Este tinha lindas linhas amarelas que serviam de trilhos para que as vogais lhes fossem internas e as consoantes as transpassassem.

Ainda empolgada por ter lembrado, avistei com o canto dos olhos a figura da professora parada ao meu lado, com uma expressão de profunda decepção, quando lhe ouvi dizendo “Essa é a letra ‘L’ Jeanine. Eu ditei a ‘E’! Não sabe a diferença?” Embora a resposta pudesse ter sido um sonoro não, obviamente que não o usei. Em lugar disso, peguei a borracha e apaguei o meu tão grave e imperdoável erro. Como qualquer criança, ainda escrevia com traço demasiadamente firme, o que estendera a tarefa de apagar a ponto de a professora passar uma vez mais por minha carteira em sua ronda. Como já se supunha, ela me recriminou pela “borradeira”, criticando-me árdua e publicamente pela perda da cor amarela da linha. A linha sumira.

Na constante busca pelo acertar, apesar da imaturidade infantil, apanhei um lápis de cor amarela e pus-me a devolver aquilo cuja perda tanto a havia enfurecido: a cor da linha. Ao ser flagrada em meu delito criativo, fui novamente humilhada diante de meus colegas, pois, agora, o traçado do grafite não “pegava” sobre o lápis de cor amarela. Quase desisti da pesada aventura do aprender.

Ao voltar para casa, e já bem longe das rondas, vi minha mãe lendo um enorme livro de capa preta. Sua feição transmitia-me muito mais que quaisquer linhas amarelas poderiam revelar-me. Meu irresistível desejo era saber o que elas – as letras – lhe diziam a ponto de deixá-la reluzente. Desistir já não era mais uma opção. Lancei-me no colo de minha mãe, leitora assídua, amante das letras e da arte de ensinar. Ali, dia após dia, apaixonei-me pelo mundo da leitura e da escrita… Alfabetizei-me. Aprender já não era pesado. A diferença entre um “E” e um “L” já não era a questão principal. Por trás das letras surgiam mundos, moviam-se personagens, formavam-se histórias…

Assim como minha mãe, excelentes alfabetizadores seguem instigando e incentivando crianças a se apaixonarem pelo mundo das letras. Professoras e professores comprometidos não só com o currículo, mas com o incomensurável poder transformador da educação. Educadores que questionam, sem medo, suas verdades e práticas, pois anseiam crescer e ajudar outros a fazê-lo. Perguntam-se, intrepidamente, quais são os limites que os têm sufocado.

Os verdadeiros alfabetizadores são aqueles que sabem que alfabetizar está muito além de ensinar um conjunto de letras, fonemas e grafias. Eles sabem que alfabetizar é, por si só, transpor limites. É dar asas e ensinar como usá-las. É ir além da linha amarela. Feliz dia da alfabetização!